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Transtornos do sono

Sono e saúde mental: uma via de mão dupla

Dormir mal deixa qualquer pessoa mais irritada e ansiosa. Mas a relação vai além: o sono ruim aumenta o risco de depressão, e cuidar do sono melhora a saúde mental. Entenda como isso funciona.

5 min de leitura
Nesta página
  1. Resumo rápido
  2. O que acontece no cérebro enquanto dormimos?
  3. Por que dormir mal deixa a gente mais ansioso e irritado?
  4. Como o sono se relaciona com ansiedade, depressão e outros transtornos?
  5. Quantas horas de sono por noite são necessárias?
  6. Cuidar do sono melhora a saúde mental?
  7. Quando o sono ruim é sinal de alerta?
  8. Perguntas frequentes
  9. Referências

Resumo rápido

  • Sono e saúde mental têm uma relação de mão dupla: problemas emocionais atrapalham o sono, e dormir mal piora o humor, a ansiedade e a concentração.
  • Quem tem insônia tem cerca de duas vezes mais risco de desenvolver depressão nos anos seguintes.
  • Uma única noite sem dormir deixa a amígdala, o "alarme" emocional do cérebro, cerca de 60% mais reativa.
  • Adultos precisam de 7 horas ou mais de sono por noite, com regularidade.
  • Estudos mostram que melhorar o sono melhora a saúde mental, reduzindo sintomas de depressão, ansiedade e estresse.

O que acontece no cérebro enquanto dormimos?

O sono não é um "desligamento". Durante a noite, o cérebro passa por ciclos de cerca de 90 minutos, repetidos 4 a 6 vezes. Cada ciclo tem fases diferentes:

FaseO que acontecePara que serve
Sono leve (N1 e N2)Transição; o corpo relaxa, a temperatura caiPrepara para o sono profundo; ajuda a fixar habilidades
Sono profundo (N3)Ondas cerebrais lentas, respiração regular, difícil de acordarRecuperação física, sistema imunológico, "limpeza" de resíduos do cérebro
Sono REMOlhos se movem rápido, sonhos vívidos, músculos relaxadosProcessa emoções e memórias, criatividade, regulação do humor

O sono profundo predomina na primeira metade da noite; o REM, na segunda. Por isso, dormir pouco (acordar muito cedo, por exemplo) corta justamente uma parte importante do REM, que ajuda a "digerir" as emoções do dia.

Por que dormir mal deixa a gente mais ansioso e irritado?

Quando dormimos pouco, duas regiões do cérebro perdem o equilíbrio:

  • A amígdala, que detecta perigo e dispara emoções, fica mais reativa. Em um estudo clássico, pessoas que passaram uma noite sem dormir tiveram uma resposta da amígdala cerca de 60% maior a imagens negativas.
  • O córtex pré-frontal, a região que "freia" e organiza as emoções, perde comunicação com a amígdala.

O resultado é conhecido: pavio curto, choro fácil, preocupação exagerada, dificuldade de concentração e tendência a ver tudo de forma mais negativa. Entenda melhor esse "alarme" em ansiedade no cérebro e no corpo.

Além disso, a privação de sono aumenta hormônios do estresse, como o cortisol, e marcadores de inflamação, que também estão ligados à depressão.

Como o sono se relaciona com ansiedade, depressão e outros transtornos?

CondiçãoComo afeta o sonoComo o sono ruim afeta a condição
AnsiedadeDificuldade para pegar no sono, mente acelerada, despertaresAumenta a preocupação e os sintomas físicos no dia seguinte
DepressãoInsônia (especialmente acordar de madrugada) ou sono excessivoInsônia dobra o risco de depressão e aumenta o risco de recaída
Transtorno bipolarDiminuição da necessidade de sono na fase de euforiaNoites sem dormir podem desencadear episódios
Estresse pós-traumáticoPesadelos repetitivos, sono leve e "em alerta"Dificulta a recuperação do trauma
Uso de álcoolFragmenta o sono na segunda metade da noiteLeva a usar mais álcool para "conseguir dormir"

Um sinal que merece atenção especial: dormir muito pouco sem sentir cansaço, com muita energia, ideias aceleradas e impulsividade, pode indicar uma fase de mania ou hipomania. Nesse caso, procure avaliação profissional logo.

Quantas horas de sono por noite são necessárias?

A recomendação para adultos é de 7 horas ou mais por noite. Dormir menos de 7 horas de forma regular está associado a mais ganho de peso, diabetes, pressão alta, doenças do coração, depressão, acidentes e piora da imunidade.

Faixa etáriaHoras recomendadas por dia
Crianças de 6 a 12 anos9 a 12 horas
Adolescentes de 13 a 18 anos8 a 10 horas
Adultos7 horas ou mais (em geral, 7 a 9)
Idosos7 a 8 horas, muitas vezes com sono mais leve e fragmentado

Mais importante que o número exato é a qualidade e a regularidade: acordar descansado, sem sonolência excessiva durante o dia, com horários parecidos todos os dias (inclusive no fim de semana).

Cuidar do sono melhora a saúde mental?

Sim. Uma grande revisão de 65 estudos com mais de 8 mil pessoas mostrou que, quando o sono melhora com tratamento, há melhora significativa de depressão, ansiedade, estresse e ruminação. E quanto mais o sono melhorava, maior o ganho para a saúde mental.

Por isso, o sono costuma ser um dos primeiros alvos no tratamento de ansiedade e depressão. Os caminhos principais são:

Quando o sono ruim é sinal de alerta?

Procure um profissional de saúde se:

  • A dificuldade para dormir acontece 3 ou mais noites por semana há mais de 3 meses.
  • Há sonolência excessiva durante o dia, cochilando em reuniões, conversas ou dirigindo.
  • Alguém percebe ronco alto com pausas na respiração.
  • O sono ruim vem junto com tristeza persistente, perda de interesse ou ansiedade intensa.
  • Há comportamentos estranhos durante o sono, como gritar, se debater ou andar.

Se a falta de sono vier acompanhada de pensamentos de morte ou de não querer mais viver, ligue para o CVV (188, gratuito, 24 horas) ou para o SAMU (192), ou vá a uma UPA.

Perguntas frequentes

Dormir mal pode causar ansiedade?

Pode piorar muito. A privação de sono deixa o "alarme" emocional do cérebro mais sensível. Em quem já tem tendência à ansiedade, a insônia costuma intensificar os sintomas.

Insônia é sintoma de depressão?

É um dos sintomas mais comuns, especialmente acordar de madrugada e não conseguir voltar a dormir. Mas a insônia também pode vir antes e aumentar o risco de depressão.

Dá para recuperar o sono no fim de semana?

Em parte. Dormir mais no fim de semana reduz um pouco o cansaço, mas não compensa totalmente a falta de sono da semana e bagunça o relógio biológico.

Dormir demais também faz mal?

Dormir muito mais que o habitual pode ser sinal de depressão, apneia ou outra doença. Vale investigar quando acontece por semanas.

Cochilo durante o dia é bom ou ruim?

Um cochilo curto, de até 20 a 30 minutos e antes das 15h, pode ajudar. Cochilos longos ou tardios atrapalham o sono da noite, especialmente em quem tem insônia.

Referências

  1. Scott AJ, Webb TL, Martyn-St James M, et al. Improving sleep quality leads to better mental health: a meta-analysis of randomised controlled trials. Sleep Medicine Reviews, 2021. Disponível em: Improving sleep quality leads to better mental health (Sleep Med Rev).
  2. Baglioni C, Battagliese G, Feige B, et al. Insomnia as a predictor of depression: a meta-analytic evaluation of longitudinal epidemiological studies. Journal of Affective Disorders, 2011. Disponível em: Insomnia as a predictor of depression (J Affect Disord).
  3. Yoo SS, Gujar N, Hu P, Jolesz FA, Walker MP. The human emotional brain without sleep: a prefrontal amygdala disconnect. Current Biology, 2007. Disponível em: The human emotional brain without sleep (Current Biology).
  4. Watson NF, Badr MS, Belenky G, et al. Recommended amount of sleep for a healthy adult: a joint consensus statement of the American Academy of Sleep Medicine and Sleep Research Society. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2015. Disponível em: Recommended amount of sleep for a healthy adult (AASM/SRS).
  5. Riemann D, Espie CA, Altena E, et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. Journal of Sleep Research, 2023. Disponível em: The European Insomnia Guideline 2023 (Journal of Sleep Research).
Escrito porEditora Técnica e Enfermeira Mestre em Saúde
Revisado porMédico Clínico Geral · CRM 5293516-6

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um profissional de saúde. Em caso de dúvida ou de sintomas, procure atendimento.

Vanessa Miranda

Editora Técnica e Enfermeira Mestre em Saúde

Diogo Strauch Ribeiro

Médico Clínico Geral · CRM 5293516-6