Resumo rápido
- O critério mais importante continua sendo o conforto: o tênis deve parecer bom desde o primeiro trote.
- Em estudo com iniciantes usando tênis neutro, quem tinha pisada pronada não se machucou mais do que quem tinha pisada neutra.
- O drop, a diferença de altura entre calcanhar e ponta, não mudou o risco de lesão na maioria dos corredores. Mudanças bruscas é que pedem cuidado.
- Alternar entre mais de um par esteve associado a menos lesões.
- Troque o tênis quando o amortecimento estiver gasto, o que costuma acontecer entre 500 e 800 km.
O que mais importa na escolha?
Por décadas, a escolha do tênis de corrida se baseou em dois pontos: o tipo de pisada e a quantidade de amortecimento. Pesquisas mais recentes mostram que essas regras previnem lesões menos do que se imaginava, e pesquisadores propuseram um critério mais simples: o filtro do conforto. Quando um tênis é confortável para você, ele tende a respeitar o movimento natural do seu corpo.
Na loja, calce os dois pés, com a meia de corrida, e dê um trote curto, se possível. Deve sobrar cerca de um dedo de espaço na ponta, porque o pé se desloca e incha durante a corrida. A frente deve ser larga o suficiente para os dedos se mexerem, e o calcanhar deve ficar firme.
Preciso de tênis para pisada pronada?
A pronação é o movimento do pé rolando levemente para dentro ao tocar o chão, e ela é normal: ajuda a absorver o impacto. Por muito tempo, quem tinha pronação maior era orientado a usar tênis com controle de estabilidade.
Um estudo dinamarquês acompanhou por um ano cerca de 900 corredores iniciantes, todos usando o mesmo tênis neutro. Os que tinham pisada pronada não tiveram mais lesões do que os de pisada neutra. Outros estudos encontraram resultados diferentes em casos de pronação muito acentuada, por isso o tema ainda não está totalmente fechado.
Na prática: se você não sente dor, escolha pelo conforto. Se tem dores que se repetem, uma avaliação com fisioterapeuta ou médico do esporte pode indicar um tênis com mais estabilidade ou uma palmilha.
Quais são os tipos de tênis de corrida?
| Tipo | Características | Para quem costuma servir |
|---|---|---|
| Neutro com amortecimento | Equilíbrio entre conforto e leveza | A maioria dos corredores, no dia a dia |
| Amortecimento máximo | Espuma alta e macia | Treinos longos e quem busca mais conforto |
| Estabilidade | Reforço na parte interna do tênis | Quem se sente mais confortável com mais apoio |
| Leve ou de competição | Menos espuma e menos peso | Treinos rápidos e provas |
| Placa de carbono | Espuma de alto retorno com placa rígida | Provas e treinos específicos de corredores mais experientes |
| Trilha | Sola com cravos e mais proteção | Terra, pedras e lama |
| Minimalista | Pouca espuma, drop baixo e sola flexível | Quem já tem adaptação e faz a transição aos poucos |
E o amortecimento e o drop?
Amortecimento em excesso não é sinônimo de proteção: tênis muito macios podem deixar o pé instável para algumas pessoas. Mais uma vez, o conforto é o melhor guia.
O drop é a diferença de altura entre o calcanhar e a frente do tênis. Tênis tradicionais têm drop de 8 a 12 mm, e modelos minimalistas, de 0 a 4 mm. Um estudo com mais de 500 corredores recreativos não encontrou diferença no risco geral de lesão entre drops altos e baixos. Mas, entre os que corriam com pouca frequência, o drop baixo esteve associado a mais lesões.
A lição é: se quiser mudar para um tênis com drop bem mais baixo ou minimalista, faça a transição aos poucos, começando com treinos curtos, porque a carga na panturrilha e no tendão de Aquiles aumenta.
Tênis com placa de carbono vale a pena?
Os tênis com placa de carbono e espumas de alto retorno podem melhorar a economia de corrida, ou seja, gastar menos energia na mesma velocidade, e são muito usados em provas. Para iniciantes, porém, eles não são necessários: são caros, duram menos e costumam ser menos estáveis. Faz mais sentido guardá-los para provas e treinos específicos, quando você já corre com regularidade.
Vale ter mais de um par? Quando trocar?
Um estudo com corredores recreativos mostrou que quem alternava mais de um par de tênis teve menos lesões do que quem usava sempre o mesmo. Uma explicação é que modelos diferentes variam um pouco a carga sobre o corpo. Se for possível, ter dois pares e alternar pode ajudar, além de dar tempo para a espuma se recuperar.
Troque o tênis quando notar:
- Espuma achatada ou com rugas profundas.
- Sola gasta, principalmente no calcanhar ou na frente.
- Tênis deformado ou torto quando apoiado numa mesa.
- Dores novas depois dos treinos, sem outro motivo.
Em geral, isso acontece entre 500 e 800 km de uso, dependendo do modelo, do peso do corredor e do piso.
Dor que se repete sempre no mesmo lugar não se resolve só trocando de tênis. Se ela persistir, procure avaliação com um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Preciso fazer exame de pisada para comprar tênis?
Não é obrigatório. Escolher pelo conforto funciona bem para a maioria das pessoas. A avaliação é mais útil para quem tem dores que se repetem.
Tênis caro previne lesão?
Não necessariamente. Um tênis de preço intermediário e confortável costuma funcionar tão bem quanto um modelo top de linha para o dia a dia.
Posso correr com tênis de caminhada?
Para trotes curtos, sim. Para treinos regulares, prefira um tênis de corrida, mais leve e com amortecimento pensado para o impacto da corrida.
Correr descalço é melhor?
Não há evidência de que correr descalço previna lesões para a maioria das pessoas. Se quiser experimentar, faça em superfícies seguras e com adaptação bem gradual.
Preciso amaciar o tênis novo?
Os tênis atuais não costumam precisar. Mas vale usar o par novo primeiro em treinos curtos antes de uma prova ou treino longo.
Referências
- Nigg BM, Baltich J, Hoerzer S, Enders H. Running shoes and running injuries: mythbusting and a proposal for two new paradigms: 'preferred movement path' and 'comfort filter'. British Journal of Sports Medicine, 2015. Disponível em: Running shoes and running injuries: mythbusting and two new paradigms (British Journal of Sports Medicine). Acesso em: 27/09/2026.
- Nielsen RO, Buist I, Parner ET, et al. Foot pronation is not associated with increased injury risk in novice runners wearing a neutral shoe: a 1-year prospective cohort study. British Journal of Sports Medicine, 2014. Disponível em: Foot pronation is not associated with increased injury risk in novice runners wearing a neutral shoe (British Journal of Sports Medicine). Acesso em: 27/09/2026.
- Malisoux L, Chambon N, Urhausen A, Theisen D. Influence of the heel-to-toe drop of standard cushioned running shoes on injury risk in leisure-time runners. American Journal of Sports Medicine, 2016. Disponível em: Influence of the heel-to-toe drop of standard cushioned running shoes on injury risk (American Journal of Sports Medicine). Acesso em: 27/09/2026.
- Malisoux L, Ramesh J, Mann R, et al. Can parallel use of different running shoes decrease running-related injury risk? Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 2015. Disponível em: Can parallel use of different running shoes decrease running-related injury risk? (Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports). Acesso em: 27/09/2026.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um profissional de saúde. Em caso de dúvida ou de sintomas, procure atendimento.

